15 February 2010

Primeiro relance

"Parámos. Continuavámos na grande Avenida, esposa do pequeno e fedorento Rio que corria à nossa direita. Mas que marido tão repugnante. Nem a pequena pontinha de luz que vinha surgindo por trás dele, vinda de uma grande futura bola amarela, tornava-o mais agradável. Recentemente soubera-se do caso que este tal Rio tinha com a Lua. Caso sério. Sempre que esta aparecia ele seguia-a, como bom amante, deixando atrás de si o cheiro putrefacto da sua traição. O seu fundo chorava lama preta, estagnada em lixo e peixes mortos. E aí via-se a razão pela qual ele a deixara por outra mais alta e pura: cilindros de cimento oco traziam de dentro da Avenida dejectos humanos, mais papel encharcado em porcaria, ratos já há muito decompostos. Por isso ele fugia. Mas sempre voltava, arrependido talvez, pedindo desculpas. Mais provavelmente obrigado pelo serviço natural. E ela aceitava-o de novo, lavando o odor nauseabundo. Até que a Lua voltava, e o Rio esquecia-se de qualquer dever. E então, a esposa traída afogava de novo a sua mágoa no leito nojento, traiçoeiro, seco."

in, 113 by Sophie V. Mishra

10


JON KLASSEN

09 February 2010

«Voir le monde comme je suis, non comme il est.»

Paul Eluard

Back to the sun


Com base na indicação:"A minha visão do mundo para as futuras gerações". Qualidade proporcional ao pouco tempo que me deram para montar este vídeo. Todos os fragmentos foram tirados do Youtube, nenhum deles é originalmente meu. Músicas da banda sonora do filme 300.

O Polegar de Deus (2003)

O meu livro favorito quando ainda não sabia escrever preferido.

08 February 2010

Viagem ao Centro da Terra - Júlio Verne

photo by TIMES

Dei por mim a pensar na profundidade e complexidade da nossa mente. Tudo o que criámos e adaptámos às nossas ambições, desde os palitos até às naves espaciais, passando pelo vidro, o plástico e o cobre. Subimos mais alto do que qualquer outra espécie e nem isso nos satisfez. Furámos e arranhámos para chegar ao centro da Terra que Verne descreveu, continuamos com a ideia de que somos invencíveis. Pior ainda, admitimos sem qualquer pudor que mesmo se não o fôssemos, a única coisa capaz de nos destruir seriam os nossos próprios erros e invenções. Aquecimento global, inteligência artificial, pecado original, castigo divino. Tornámo-nos demasiado grandes, demasiado orgulhosos e criativos. Talvez até mais poderosos que Deus. Mas o que é Ele afinal? Uma ideia, um conceito? Um suspiro? O que é Deus se Nele eu não acredito? Para mim... nada. Perdão, Nada. Escrevemos milhares de milhões de livros, inventámos incontáveis palavras e estanderizámos comportamentos a escalas completamente absurdas. A nossa imaginação continua a conquistar obstáculos. Continuamos a vencer. Temos inclusivamente a capacidade de pensar se tudo isto é real, onde está a verdade. Somos capazes de reflectir sobre aquilo que reflectimos de forma a entrar numa cadeia infinita de questões e perguntas obviamente retóricas. Até quando não pensamos, estamos a pensar. Ouvi dizer há alguns anos que o conhecimento que temos hoje é comparável a uma única gota de um oceano imenso de saber. Sinto-me mergulhada dos pés à cabeça nesse saber desconhecido. Flutuo na vontade de o agarrar, mesmo sabendo que por mais que tente, nunca vou conseguir segurar a água que escorre da torneira. Sim, estamos todos aqui, agora, submersos naquilo a que chamamos ignorância, tentando inutilmente afastar o líquido invisível da nossa vista. Ou mergulhar perante as profundezas do abismo, procurando o leito firme do oceano. Estes já estão mortos. Os outros também. Afinal onde está Deus? Que partida é esta da nossa mente que cria uma esperança tão subectiva? Seja como for, estamos todos mortos.

07 February 2010