19 October 2009

4º Poema

Quando sei da boca oca,
Ferida pelo amargo tempo,
Para sempre uma voz louca
Que dura apenas momento.

Os lábios mexem-se à Terra,
Onde por cima toca o vento;
Uma cadeira arrastada, perra,
Num monte vergado me sento.

Para cima só resta nada,
Dentro de mim já o nada vendo
À falência é quase obrigada
Os lábios secos fervendo.

(Aula de sociologia)

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06 October 2009

Se eu pudesse (2)

"Se eu te pudesse dizer
O que nunca te direi,
Tu terias que entender
Aquilo que nem eu sei. "

Fernando Pessoa

Se eu pudesse (1)

"Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria o mais feliz momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...

Nem tudo é dia de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é, e assim seja..."

Alberto Caeiro